Trabalho, reza e confraternização

Texto e fotos: Adriana Silva

O mutirão é um costume e tradição que está sendo resgatado por algumas comunidades rurais localizadas na Cidade de Goiás, como a do Caiapó, Arte Nova e Índio. As pessoas se juntam, convidam vizinhos, amigos e parentes que marcam um dia do ano, geralmente no sábado, para roçar o pasto do anfitrião, que retribui com um bom almoço, cachaça e ainda prepara um baile a noite, como forma de agradecimento pelo serviço prestado.

Participei de um mutirão e conversei com o dono da terra, o senhor Webius da Silva, 33 anos, mais conhecido como Buda. Ele conta que o pessoal chega a limpar de três a cinco alqueires antes do almoço. “O trabalho fica bem feito e se economiza uns dois mil reais”, dinheiro que se pagaria caso contratasse um peão para fazer o serviço que seria realizado no mínimo em trinta dias. Webius ainda acrescenta “Aqui o trabalho fica pronto em um dia e o mais importante é a confraternização entre os amigos.”

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Webius da Silva em sua propriedade no município de Goiás

No início do ano, é a época dos homens roçarem o pasto, a fim de prepará-lo para servir de alimento para o gado. As foices dançam no mato, em sincronia balançam de lá pra cá nas mãos calejadas de seus músicos. Alguns marimbondos e carrapatos aparecem para dificultar o trabalho, e é bom ficar atento porque no meio do mato você pode encontrar cobras também! Mas nada que esses camponeses já não estivessem acostumados em sua labuta diária.

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Homens roçando pasto com as foices

O senhor Vidal Rodrigues, de 63 anos, participa da tradição há mais de quarenta. Ele relembra como ela funcionava e aponta alguns detalhes que se perderam com as primaveras. “Antigamente existia a ‘traição’, quando um grupo de homens combinavam entre si de chegar de madrugada na fazenda sem o dono saber batendo as foices e soltando fogos. Perguntei a ele como o dono da terra fazia para preparar o almoço de última hora. – “Hoje o pessoal trás da cidade a maior parte do alimento, antigamente levava para ela”. No seu tempo de criança era comum celeiros cheios de mantimentos e muitos filhos para ajudar na roça. Também se perderam as cantorias na hora do trabalho, pois, além das foices, era costume  trazer de casa a viola e a vontade de cantar. Seu Vidal recita o verso de uma das músicas comuns de se ouvir no passado, que segundo ele,  era útil para animar os roçadeiros.  “Ê sariema, passeando na queimada, buliando os mocotó, catando seus gafanhotos, ê sariema…”.

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Sr. Vidal Rodrigues com toda a sua simpatia

Entre os mais novos ali reunidos estava Caio da Silva Alves, de 16 anos. O rapaz mora na região e gosta de acompanhar o pai nos eventos da comunidade, mas não esquece os estudos – está cursando o primeiro ano do ensino médio e de segunda a sexta feira vai para a escola localizada na Cidade de Goiás, em um ônibus escolar.  Pelo sorriso no rosto e o seu entrosamento com o restante do pessoal, nota-se que não está ali obrigado, e sim aprendendo e dando continuidade à tradição de seu  pai, avô e bisavô.

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Estudante Caio da Silva Alves

Além dos homens, as mulheres têm um papel fundamental no mutirão, já que são elas as donas da cozinha. Com amor usam de talentos e temperos para levar sabor e saciedade aos estômagos vazios.  Dona Lorença da Silva Rodrigues, mulher de seu Vidal, apresenta o cardápio composto de arroz, mandioca, feijão de caldo e  tropeiro, salada, carne de porco, carne de vaca e a famosa vaca atolada (carne cozida com mandioca). Ela e mais sete mulheres se revezam e se ajudam para o preparo do almoço. Uma faz o arroz, outra frita a carne, corta, tempera, limpa o que sujou e o serviço não para, nem a alegria das conversas e o cheiro delicioso de comida caseira feita no fogão a lenha.

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Dona Lorença da Silva Rodrigues cuidando do feijão no fogão a lenha
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As donas da cozinha, da direita para a esquerda: Leonor Ferraz de Lima; Ana Paula Silva Rodrigues com a filha Ana Luiza; Nilza Maria dos Santos; Lorença da Silva Rodrigues; Domingas Rodrigues Siqueira; Valéria Rodrigues e Rosinei Cardoso dos Santos.

Quando os homens chegam do mato, todos se reúnem em volta de uma grande mesa de madeira, o dono da casa agradece a presença de todos e, em uníssono, oram à Deus pela fartura com um Pai Nosso e duas Ave Maria.

Raízes do mutirão

Doutor e professor de geografia pela Universidade Federal de Goiás (UFG), e atuante em temas como modernização, relações de trabalho e movimentos sociais dentro do campo, Manuel Calaça conta que o mutirão existe desde a Idade Média e foi implementado no Brasil com o início da imigração, principalmente de italianos, para o trabalho nas lavouras de café. “O campesinato goiano resulta dessa expansão do sistema de colonato.”

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Professor Manuel Calaça em sala de aula na UFG

Os colonos tinham como parte da retribuição pelo seu trabalho um pedaço de terra para o plantio de produtos alimentícios e realizavam as práticas de ajuda mútua, sendo o mutirão uma delas. O professor explica que existem dois tipos de ajuda mútua dentro do campo: a troca de dias, que é esporádica e eventual, quando o camponês realiza um trabalho para o outro, se tornando um compromisso ético devolvê-lo quando  for necessário, e o mutirão por iniciativa do próprio campesino, que pode ter uma demanda de trabalho acima da sua capacidade.

Com a Revolução Verde em 1960 no  Centro-Oeste, houve um processo de desarticulação desses elementos no meio rural. O camponês perdeu o controle coletivo do processo produtivo para a modernização e tecnificação das atividades agrícolas. Aquele homem que produzia tudo o que precisava, passou a depender de produtos externos à sua propriedade, ficando em uma situação de subordinação. Calaça explica: “Na medida que o capital  controla a genética da semente e do animal, se apropriando do conhecimento camponês, promove um processo de ’erosão genética e social’ acarretando  um alto nível de dispersão do campesinato, que ainda se preserva  nos acampamentos rurais e nas organizações de natureza coletiva.”

Ainda, segundo Calaça, há uma alteração da identidade camponesa, que incorpora novos elementos e  perde outros. Os movimentos sociais trabalham na direção do resgate à  prática do mutirão, que não é um elemento isolado, mas acompanhado da festa, da reza e da novena, dentro de um contexto político, social e cultural.

O professor guarda em sua memória afetiva as lembranças do mutirão tradicional que seu avô realizava na Fazenda Macaúba, em Catalão, hoje ocupada pela mineração. “Tem uma divisão do trabalho dentro do mutirão, a minha função era chamar o pessoal para o almoço e lanche e, enquanto os homens iam trabalhar com a enxada na limpeza do rego d’água, eu pagava os bagres, um tipo de peixe que ficavam sobre a água. A noite era festa, com os pagodes da roça, as sanfonas e violões… É um ato de solidariedade, palavra que sintetiza toda essa ação.”

 

 

 

 

 

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