O poeta que voa

Texto e fotos : Adriana Silva

Na Cidade de Goiás mora um senhor, melhor dizendo, um poeta: Divino Damasceno de Almeida nasceu em 1957 no distrito de Buenolândia, filho de Francisco Paulo de Almeida, pequeno sitiante e da dona de casa Malvina Rosa Damasceno.

O personagem real desse texto veio ao mundo com incapacidade de desenvolvimento motor, vítima da rubéola, limitação essa que não o fez desistir da busca pelo conhecimento. Teve os primeiros contatos com os livros na escola rural na Fazenda Caiapó e logo que concluiu o ensino primário aos oito anos de idade se mudou para a antiga capital do estado, em uma casa no bairro João Francisco, onde mora até hoje.

Se matriculou no colégio Dom Abel, escola que fica praticamente em frente a sua casa, o que facilitava seu deslocamento. Na época onde poucos iam em busca de oportunidades na cidade, grande parte dos homens permaneciam no campo, lavrando a terra dia após dia. A limitação física de Divino o impediu de seguir os passos do pai,  que de certa forma, o fez despertar pelo amor as palavras.

Quando concluiu o Ensino Primário matriculou-se no Colégio Estadual Alcide Jubé. Não permaneceu na escola, devido às dificuldades de locomoção, já que o prédio carecia de rampas, possuindo apenas escadas para o acesso as salas.  Poetas não desistem fácil… Divino se tornou autodidata, estudando no próprio lar. Se inscreveu em um curso a distância e concluiu o ginasial, antigo ensino médio.

No ano 2000 estudou para passar nos vestibulares de História e Medicina e  surgiram mais barreiras. Quando era criança presenciou o pai sofrer um choque devido a uma descarga elétrica quando se aproximava de uma cerca de arame, que o fez perder a fala por alguns instante. Por causa desse acontecimento Divino cresceu com brontofobia (medo de temporal). No dia da prova ele foi surpreendido por forte chuva, a qual o impediu de realizar os exames, devido ao acesso de pânico que o inundou.

Divino ganhou destaque pela primeira vez em 1986 com o poema  “A sombra mangueirais” que foi divulgado pelo veículo “Jornal Cidade de Goiás”. O poeta tem publicado  três livros de poesias, No Fundo das Horas, Sombras de Outono e Baú de Cinzas, este último ganhou o 3º lugar no Prêmio il Convívio, na Itália, em 2014.

Em conversa com Divino Damasceno ele conta que não lê  poemas de outros autores, grande parte dos livros que possui são enciclopédias. Nas páginas brancas discorre sobre temas universais: Morte, dor, medo, amor… E quando menos imagina, uma palavra puxa cinco, cinco puxa dez e assim vai inundando páginas e páginas com flores desabrochando de seu jardim.

Ele compara o ato de escrever com o voo do condor, ave  que voa alto. Da mesma forma sua mente criativa voa e percorre o subconsciente, chegando as Cordilheiras dos Andes e batendo um papo com o escritor Pablo Neruda.

O poeta conta que tem vontade de “experimentar a vida do outro lado”, mas para isso precisa realizar alguns sonhos, como escrever mais dez mil poemas e somado com os vinte mil já escritos, publicá-los e entrar para o livro dos recordes. Outro sonho é se mudar para Salvador, cidade do poeta Gregório Matos Guerra, também onde faleceu o Padre Pedro Antônio Vieira (referências dadas por Divino) e estudar na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Ex militante do MST expõe suas identificações políticas de uma sociedade em que não exista desigualdade de classes e má distribuição de rendas. Se familiariza com o anarquismo:o estado no poder do povo, “um povo honesto e educado” – pontua.

Com relação a Deus o ex ateu fala sobre suas percepções: “Creio na verdade suprema como orientação energética e infinita do grande escultor e arquiteto do universo. Creio na sabedoria que emana dessa força propulsora como fruto maturado, traduzindo para vida aromas e sabores diversos.”

No quarto de Divino está seus livros encadernados com mais de vinte mil poemas organizados sobre o piso, nas paredes a confirmação de  dedicação, com prêmios e certificados. Na escrivaninha um computador onde descobre o mundo e pode ir a lugares distantes. Na estante volumes de enciclopédias das quais tira significado para  palavras e coisas.

Ele se sente confortável sentado no chão, eu nem tanto, mas ouço com atenção sua autorevelação, onde se abre com seus medos, ideias, sentimentos e pesares. E em mais um dia quente e seco diz sem sombras de dúvida: “ Vida sem sonho é macabra.”

Poetas goianos

A escritora e Professora de Letras, Goiandira de Fátima Ortiz Camargo é natural da Cidade de Goiás e conhece pessoalmente a Divino e a sua obra.  Ela conta que ele sempre foi vocacionado para poesia e que a usa como forma de se expressar. “ Seu trabalho contribui para a reflexão do mundo e das relações interpessoais” – explica. Ainda segundo a visão da professora a linguagem de Divino é coloquial, mais próxima da realidade cotidiana, onde não há a preocupação com o rigor linguístico. Essa mudança na forma de se expressar poeticamente não é nova e veio para Brasil em 1922 com o Modernismo.

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Goiandira de Fátima Ortiz Camargo

A respeito do cenário poético goiano, Goiandira fala que desde os anos 2000 tem surgindo uma boa leva de poetas, que são reconhecidos, premiados e atuantes. Hoje também existem muitos jovens que usam as redes sociais para divulgarem seus poemas, que além de atingirem a um novo tipo de leitor, é uma forma a mais de publicação, com menor ou zero de custo, se comparado a uma publicação física, que é o livro em papel. “Essa geração é muito boa em termos de construção do verso e de consciência poética.” – pontua.

Sobre a temática da poesia feita em Goiás, ela está longe de ser regionalista, ou folclórica, e Goiandira explica: “A poesia brasileira feita em Goiás, neste caso a poesia goiana, se caracteriza pela temática e traços de linguagem que se universalizam. A poesia assim como a música são as modalidades artísticas que possuem a linguagem mais universal, a identidade  é formada de outra maneira, nos detalhes…”

 

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