O Cerrado na ponta do pincel

Texto e fotos: Adriana Silva

A aquarela é uma das técnicas de pinturas mais antigas e populares do mundo. Supõe-se que seu surgimento ocorreu junto com o papel e os pincéis de pelos de coelhos há mais de 2000 mil anos na China. A arte foi introduzida no Ocidente durante a Idade Média com Taedeo Gaddi, aluno de Giotto, mas se incorporou na cultura ocidental no período Renascentista com o alemão Albrecht Dürer, que produziu mais de 120 obras usando a técnica. Em 1550 John White registrou em aquarela as belezas naturais e culturais de suas expedições pelo Novo Mundo, recebendo o título de “Pai da Aquarela”, que somente no século XVIII ganhou autonomia como arte e se difundiu por toda a Europa.

Várias produções em aquarela registraram e registram a fauna e flora brasileira e muitos cientistas naturalistas deixaram importantes obras sobre espécies de plantas e animais com descrições e desenhos detalhistas. Segundo o artista plástico e professor de Artes e Arquitetura da Universidade Católica de Goiás Tai Hsuan-An, esses trabalhos trouxeram inúmeras contribuições para a ciência e arte ao mesmo tempo.

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Artista plástico Tai Hsuan-An. Foto: Mantovani Fernandes

Tai nasceu na China em 1950 e imigrou para o Brasil em 1965. Fez a graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP) e atualmente ministra cursos de pintura, ilustração e mandarim no Espaço Cultural Milagre dos Peixes, em Goiânia. Versátil o artista também atua como designer e programador visual e desenvolve trabalhos de pintura naturalista de fauna e flora brasileiros, principalmente do bioma ainda pouco explorado nessa área, o Cerrado.

Sua última obra “ O Cerrado: Formas e Cores em Aquarela” foi um trabalho que também reuniu as ilustrações de dois jovens pintores e alunos de Tai, que se especializaram por meio dele em aquarela naturalista, Milena Ribeiro e Vinícius Yano. Eles retrataram em cores vivas espécies de pássaros e flores do Cerrado, o que envolveu o processo da pesquisa e do registro fotográfico antes da ilustração. Tudo pensado, estudado e planejado nos mínimos detalhes para a finalização do produto. “O trabalho de equipe como um estímulo aos jovens artistas em aquarela naturalista, precisa ser valorizada e merece ser explorada” escreve Tai na parte introdutória do livro.

Em conversa com Milena Ribeiro ela conta que seu interesse pela pintura surgiu ainda criança, influenciada por um ambiente artístico, já que os pais são artistas plásticos e escritores. Em 2010 ela procurou alguém para lhe ensinar aquarela, e conheceu Tai, que foi seu professor.

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Milena Ribeiro no lançamento de seu primeiro livro

Vinícius também aprendeu a desenhar ainda criança, contando com o apoio dos pais, que segundo ele, sempre incentivaram seu gosto pela pintura, disponibilizando os materiais e matriculando o filho em escolas de Arte. Na adolescência Vinícius migrou para o grafite, o que o ajudou a escolher a graduação em Design. Na faculdade ele teve seu primeiro contato com Tai Hsuan-An, que ministrava algumas disciplinas do curso e logo o professor viu nele um grande potencial. Assim, Vinícius, Tai e Milena formaram o grupo “Natureza Viva”, dando início a produção do livro.

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Vinícius Yano no lançamento de seu livro, em Fnac, Flamboyant

Os autores explicaram a escolha de ilustrar o Cerrado :“Buscamos fazer algo que nos representassem e que tivesse raiz”, conta Milena. “Sempre achei importante pintar elementos que representam a minha região, o Cerrado é muito rico e ainda é pouco retratado em obras como essa”. declara Vinícius.

Os artistas também contaram com a ajuda de biólogos para a identificação das espécies, que foram fotografadas em cidades como Pirenópolis, Goiás, em reservas ambientais e fazendas onde o Cerrado estivesse mais preservado. O lançamento do livro financiado pela Lei de Incentivo a Cultura aconteceu na Fnac, no Shopping Flamboyant.

Lá os artistas receberam o prestígio de colegas e admiradores, como a Professora de Belas Artes , Arquitetura e Design da Universidade Católica de Goiás, Sáida Cunha, que declarou sua admiração pela obra: “Um trabalho belíssimo de muita dedicação, que conta com o registro do Cerrado e preserva a memória desses bens naturais que fazem parte da nossa história.”

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Professora Sáida Cunha

A aquarela é uma arte onde os pigmentos são dissolvidos ou suspensos na água. É admirada por pintores de todo o mundo e muito utilizada na educação infantil. É excelente para registrar com exatidão belezas naturais com realismo e perfeição. Dentro da aquarela existem inúmeras técnicas como o refluxo, pinceladas, gradação, contornos, tintas borrifadas, entre outras. O Cerrado é uma arte viva que hoje está sendo valorizada em obras de artistas plásticos, como Tai, Milena e Vinícius, que reconhecem que, através do seu trabalho, as belezas muitas vezes desapercebidas desse vasto bioma pode ser levada a um número maior de pessoas. Conhecer e admirar é o primeiro passo para preservar.

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