Grupo de Coco e Cultura Goiana

Texto: Adriana Silva

Foto: Ney Couteiro

Um projeto com cantigas de rodas e cirandas onde mais de 30 mulheres dançavam e cantavam ao som de instrumentos de percussão… Foi assim os primeiros passos do grupo musical Passarinhos do Cerrado. Até que um dos integrantes da banda, Rodrigo Kaverna, propôs que passassem a tocar um estilo específico, o Coco.

Para que a ideia desse certo, todos se comprometeram a uma pesquisa aprofundada sobre esse estilo musical, assim, o trabalho tomou proporções maiores e exigiu mais ensaio e dedicação. Muitos integrantes foram saindo, até chegar a formação atual, composta por Bruna Junqueira, Cléber Reizim, Milca Francielle, Nádia Junqueira e Rodrigo Kaverna.

O estudo do Coco – de origem afro indígena –  foi baseado em Pernambuco, já que o estilo musical é muito forte e difundido por lá e tocado nas festas tradicionais do estado, como o Carnaval e o São João.

Em junho de 2008 a banda participou do Encontro de Cultura dos Povos da Chapada e lá conheceram o grupo de Coco nordestino Pandeiro do Mestre. Através dessa aproximação eles tiveram acesso aos instrumentos apropriados para tocar o Coco e também  iniciaram a produção do primeiro CD, sob a direção de Nilton Júnior.

E foi tocando o Coco, misturado aos elementos melódicos e rítmicos de importantes movimentos regionais de Goiás, como a Folia de Reis, a Congada e a Catira, que em 2014 foi lançado o primeiro CD da banda, o “Coco de Folia”. Segundo  Bruna Junqueira, integrante dos Passarinhos, o trabalho é inédito: “O Coco toma características do lugar onde é feito e percebemos que tínhamos criado um novo tipo de Coco, que é o Coco de Folia”.

No trabalho são narrados elementos que compõe a cultura goiana, tanto da paisagem natural do Cerrado, quanto das festas, das cidades e da religiosidade popular. Em  2012 a banda ficou em primeiro lugar no festival promovido pelo SESI, Canta Cerrado, com a música “Peregrinação”.

A canção conta a história de Trindade, das festas  da cidade e da peregrinação religiosa. Essa e todas as outras músicas do grupo são autorais, que segundo Bruna fortifica o trabalho:  “Hoje qualquer artista que queira se firmar  no mercado, não digo nem financeiramente, mas em termos de somar para construir o cenário musical, tem que se ligar a composição. O fato do nosso trabalho ser autoral nos fortalece”.

“Origens”

O primeiro disco da banda teve o intuito de apresentar Goiás, o Cerrado e o Coco de Folia.  Já o novo CD “Origens”, como o nome já trás, busca relembrar e homenagear grupos étnicos que fazem parte da origem cultural dos goianos, como os indígenas e os quilombolas.

A música “Coco da Xambá”, uma das faixas do trabalho, fala sobre os resquícios do quilombo de Niquelândia: “Meu avô foi violeiro. Folias tradicionais. Esse é neto de escravos. De Niquelândia, Goiás”. O disco foi gravado em Pernambuco, pelo produtor Juliano Holanda,  em um estúdio onde são feitos 90% dos CDs de Coco.

A escolha do lugar foi acertada já que proporcionou a participação de vários grupos de Coco da região, referências para a banda, como o Bongar e a Matinada. Também   participaram da gravação do CD a Congada de Santa Efigênia, de Niquelândia e os Khahô, contribuindo com os torés – canto indígena.

Na música “Ciranda do Cerrado” as riquezas culturais do estado são exaltadas: “Tem cantadores e violeiros, tem folias tem congadas, que nos levam a lembrar, a minha e a sua caminhada, entre fogos e fornalhas, lembra tudo de Goiás, eu sou filho dessa terra e daqui não saio mais (…) Já ouvi o chamado. Eu vou. Atrás da minha origem. Eu vou. Origem de um povo sofrido. Eu vou. Ai, Avá canoeiro. Ai, Avá canoeiro”.  

Os Passarinhos do Cerrado trabalham com os elementos de tradições milenares. E mesmo não compartilhando da mesma religiosidade e vivências desses grupos, Bruna conta que eles têm paixão e um profundo interesse em pesquisar sobre a  cultura popular e tudo é feito de forma responsável: “Sabemos nossos limites e por mais que nosso trabalho dialogue com a música indígena, eu não sou indigna, então eu não posso me atrever a fazer o que o indígena faz, porque eu não sou ele. O que podemos é dialogar com os elementos indígenas, fazer menção e reverência”.

E o grupo regional de cultura popular goiana nem de longe está no cardápio da indústria cultural e eles falaram o porquê: “Nadamos contra a maré, pois, produzimos músicas de resistência. Todas  fazem menção e bebe da fonte de canções cantadas em festas e rituais de populações tradicionais, que em um cenário sociopolítico, são pessoas  que estão na mira do extermínio. Nosso trabalho se soma a uma frente maior de resistência dos povos e remete a valores contrários a cultura dominante”.

E não dá para ficar parado ouvindo os Passarinhos do Cerrado, seu som  envolve corpo e alma. Em suas apresentações eles dançam Coco e convidam o público a dançarem também. Ao final fazem uma ciranda – uma das danças mais universais – que imita o movimento do mar, agregando e unindo as pessoas. A cena é uma linda festa com tudo o que o Cerrado tem de melhor!

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